Em fevereiro de 2011, o Sol Team (composto por Clara Hillmann, Felipe Hass Krahn, Hans Peda Behling e Léo Nardi Borba) esteve presente na Expedição Tierra Viva: uma corrida de aventura de 500 km que mesclou longos trechos de trekking, caiaque e mountain bike na região de Vila La Angostura (próximo de Bariloche, na Argentina).Vinte e nove equipes de diferentes países largaram para seis dias de prova, passando por uma série de PCs (pontos de controle), orientando-se somente com bússolas e cartas topográficas fornecidas pela organização (sendo proibido o uso de GPSs).
 
A prova expedicionária aconteceu no legítimo estilo non stop (sem paradas obrigatórias, cada equipe decide quando e como parar, descansar e se alimentar), e sem equipe de apoio (contando somente com seus próprios recursos para sobrevivência).Equipe SolPor desconhecimento do terreno, erros de navegação (causados pela diferença no estilodas cartas topográficas em relação às provas no Brasil), e problemas físicos (causadosprincipalmente pelos longos trechos sem alimentação, calos e tendinites nos pés) o SolTeam abandonou a prova no início do quarto dia de competição e somente uma das três equipes brasileiras participantes conseguiu completar a prova.
 
Mais informações em http://tierraviva.com.ar/2011/
 
Segue narrativa da prova:
 
Chegamos em Vila La Angostura para a competição (que iniciaria na 2a feira ao meio dia) com um ou dois dias de antecedência para comprar equipamentos e comida, e tambémfazer um pouco de reconhecimento do terreno. Mesmo assim, acabamos nos atrasando umpouco com os preparativos e chegamos para a largada literalmente “em cima do laço”, coma contagem regressiva já iniciada. Entramos com os caiaques na água na 2a feira ao meio-dia e não demoramos a estabeleceruma boa velocidade. Acompanhamos bem as outras equipes, finalizando os PCs Virtuaisdo primeiro trecho de 35km de remo em menos de 5 horas até o PC1, e os PCs Virtuais dosegundo trecho de 25km de remo em mais 4 horas até o PC2.Aproximadamente às 21h de 2a feira e já anoitecendo, largamos os caiaques e entramosno primeiro trekking de 70 a 90km, com previsão de 20 a 24h.
 
Logo no início da trilhaencontramos muitas outras equipes, das quais nos aproximávamos e afastávamosdependendo das opções de velocidade e caminho. Início da 3a feira, aproximadamente12h de prova, do meio do vale avistávamos as luzes dos head-lamps das equipes líderes,que escalavam o topo das montanhas rochosas. Nessa hora tivemos muitas dúvidas nanavegação, pois o estilo de plotagem de carta difere muito do estilo dos organizadores deprovas brasileiras (aqui temos diferentes grafismos para estrada, caminho e trilha, e noTierra Viva apenas o track-log do GPS como sugestão de caminho – pena que não sabíamosdisso naquele momento em que começava a nossa angústia).
 
.Subimos e descemos duas vezes uma trilha que parecia ser a certa, mas de repente, comoque do nada, ela desaparecia no meio de um rasga-mato quase intransponível (ao menosera o que pensávamos às 3h da madrugada). Resolvemos economizar esforços, dormir, e às6h da manhã de 3a feira, após amanhecer, procurar um ponto do terreno que nos fornecesseconfiança para continuar navegando. Voltamos um bocado na trilha, assim demoramosmuito para descobrir que não estávamos tão errados assim durante a madrugada e o tristeresultado: perdemos exatamente 12h de progressão. De volta ao caminho certo, subimosa trilha, varamos o mato e enfim passamos à escalada das rochas e pedras e chegamos noprimeiro PC Virtual no meio da tarde de 3a feira (uma das últimas equipes).
 
Sem desanimar,resolvemos aproveitar a luz do dia acelerando o passo ao descer do primeiro PC Virtualpor um vale até chegar num canyoning. Não demoramos para entrar no rio, e seguimosprogredindo mais ou menos até umas 2h da madrugada de 4a feira.Resolvemos parar para dormir em virtude da lenta progressão e frio. Bom, até aí nossaprevisão de 24h de trekking já havia estourado, e com ela boa parte de nossos mantimentos.Acordamos às 6h da manhã de 4a feira e conseguimos finalizar a descida por dentro do rioperto das 9h. Dali para frente, apesar de estarmos praticamente sem comida, tivemos umaprogressão muito boa e rápida. Sem erros de navegação, logo encontramos o segundo PCVirtual e continuamos durante uns 30km num passo rápido na busca do terceiro e último PC Virtual por lindas trilhas em vales recortados no meio de uma região montanhosa einóspita, realmente longe de qualquer indício de civilização
 
.No meio da tarde de 4a feira, aproximadamente 16h, chegamos ao topo do último valeantes do terceiro PC Virtual. Foi nessa hora que decidimos por uma estratégia: não descero vale, e contornar as montanhas pela altura da curva de nível em que nos encontrávamos,para evitar maior desgaste. Foi um grande erro nosso, pois a progressão, além de maislenta era muito perigosa: terreno desfavorável com pedras soltas e ravinas que muitasvezes nos obrigavam a uma escalaminhada (caminhada com escalada). Após 3h naqueleterreno, chegamos a uma passagem muito perigosa e praticamente intransponível quecolocou-nos em xeque: continuar numa situação de alto risco ou voltar todo aquele caminhoperigoso e lento para tentar encontrar a trilha oficial (agora já completamente sem comida,exaustos e abalados com a situação).
 
Tentamos uma alternativa: rasga-mato para descero vale e procurar a trilha, mas o mato era realmente denso e intransponível, e as ravinasassustadoras. Acho que esse foi o nosso pior momento, chegamos a um grande embate naequipe: cada um queria ir para um lado.Sentindo o real perigo da situação, resolvi abrir o rádio, informar a organização de nossasituação e pedir ajuda. Eles nos mandaram subir ao topo da cordilheira, aproximadamenteuns 200m de desnível de onde estávamos, e descer pelo vale que estava detrás damontanha, uma encosta suave que dava exatamente na bifurcação da trilha que deveríamosachar. (afinal não estávamos tão errados assim, mas vai saber…)Uma equipe de resgate enviada pela organização encontrou-nos em exatos 30 minutosdesde que eu abri o rádio (confesso que ficamos todos impressionados com isso, parabénspara a organização).
 
Os resgatistas disseram-nos que haviam auxiliado muitas outrasequipes (inclusive com comida e também a achar o PC Virtual, coisa que nunca havíamosvisto em corridas de aventura no Brasil) e que isso não implicaria na desclassificação deninguém. Sabendo da nossa situação de fome, levaram-nos até um abrigo, fizeram comidaquente e depois prosseguimos em direção ao terceiro PC Virtual e depois ao PC3.Chegamos ao PC3 (mesmo lugar onde havíamos deixado os caiaques e antes era o PC2 )umas 2h da madrugada de 5a feira. O próximo trecho era o retorno de 25km de remopassando exatamente pelo mesmo caminho que tínhamos feito dois dias antes. Outravez tivemos um embate na equipe: o clima frio e o lago com ondas me desmotivaram acontinuar naquele momento, pensei em esperar amanhecer para continuar. Alguns estavammachucados (tendinite e bolhas de água e pus nos pés).
 
Todos estávamos com fome(apesar da comida preparada pelos resgatistas umas 5h antes). Três equipes já haviamdesistido e mais uma equipe acabara de acampar para esperar amanhecer. Eu sabia que, secontinuássemos, faríamos o trecho de caiaque e talvez mais um pedaço ou todo o trecho debike, mas que não conseguiríamos ir até o fim da competição em virtude do estado dos pésde meus companheiros. Nessa hora a Clara, que era a mais motivada e só faltava gritar comtodos nós pra gente entrar logo nos caiaques e começar a remar ainda de noite, falou emalto e bom tom: “Ta bom, então vamos desistir – estamos fora”.
 
Nos entreolhamos e desistimos da corrida naquela hora mesmo, foi o fim da prova paranós. A organização não demorou para providenciar carona até o acampamento central.Acordamos na manhã de 5a feira, todos, com a terrível pergunta que até agora não seiresponder: Por que fizemos isso? Por que não dormimos junto aos caiaques e continuamosaté onde podíamos? Desistimos só porque sabíamos que não havia como completar a provatoda?
 
Enfim, os dias seguintes até a primeira equipe completar a prova foram terríveis para nós.Nem o fato de menos da metade das equipes terem completado a prova nos consolou, oresultado da Tierra Viva 2011 foi: 29 equipes inscritas, das quais somente 14 chegaramao final. Destas, 07 equipes completaram o trajeto na íntegra, enquanto 03 equipescompletaram o trajeto com um corte no último trecho de caiaque e 04 equipes com corte noúltimo trecho de trekking e no último trecho de caiaque. As demais 15 equipes desistiramda prova no decorrer do trajeto.
 
Esperamos ansiosamente o Tierra Viva 2012!
 
Hans Peda Behling

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