Pescaria Rústica na Amazônia
por Adão Leopoldo Jaeger
   
Atualmente, é fácil fazer uma viagem a muitos recantos amazônicos, pois está bastante disseminada a presença de estruturas receptivas, quer em forma de Pousadas, quer na praticidade dos Barcos-Hotel. Sem esquecer que temos várias Empresas Turísticas e Guias que facilitam ainda mais a parte de organização. Bem mais complicado é encarar a Natureza crua, do jeito que Deus nos deu. Exige planejamento, bom conhecimento de causa, entrosamento entre os parceiros e muita determinação. A Convite do Arnaldo Hass, o Baeter e eu fomos até Vidal Ramos (SC), a 172 km. de Florianópolis, onde nos encontramos com os quatro parceiros e uma confortável F-250 Turbo Diesel Tropivan, carinhosamente apelidada de "Verdona".  
 

O plano era ir pescar no Rio Juruena e seus tributários, além de uma visita ao Salto Augusto, lugar muito bom de peixes grandes. Previsão de quilometragem (de ida): mais de 3.000 km. Na madrugada seguinte, carro cheio até onde coubesse alguma coisa, começamos a rodar às 04 horas, em meio a um friozinho, passando por Rio do Sul e subindo pela BR 470 até o Trevo do antigo Patussi, pela BR 116 até Santa Cecília, na bem conservada SC 302 por Lebon Régis e Caçador e depois, na BR 153, com café no Trevo da BR 280. Atravessamos o Paraná no sentido General Carneiro - Palmas - Francisco Beltrão, subindo depois rumo Lindoeste, pela Rodovia das Cataratas, até Cascavel (almoço).

Seguindo rumo Sudoeste, passamos por Toledo e depois, Guaíra, onde passamos a Ponte sobre o Paranazão, entrando no MS. Em Naviraí completamos exatos 1.000 km. Contornamos Dourados (bela cidade, muito bem iluminada) e Campo Grande, para repouso em Bandeirantes. Fechamos o primeiro dia rodando quase 1.500 km.

No terceiro dia, já com Bermuda no corpo, cruzamos campos e mais campos agrícolas com plantações enormes, seringais, criações de animais, sempre disputando pista com frotas de caminhões pesados, passamos por algumas cidades (S. Gabriel do Oeste, Rio Verde do Mato Grosso, Coxim-MS), até a pequena Sonora, Divisa MS-MT. Almoço (muito bom) em Jaciara - MT, no Restaurante Chaleira Preta. À tarde, cada vez menos cidades à vista, até chegar ao Anel Viário de Cuiabá. Em Jangada passamos sobre a nascente do Rio São Lourenço. 

Finalmente alcançamos Alta Floresta, cidade-pólo do extremo norte-mato-grossense (e o fim do asfalto, para nós, que mudaríamos o rumo para Oeste). De início, encaramos 150 km. de chão batido, com longos trechos sem viva alma, a Verdona já amarelada do pó, pontes detonadas pelos pesados bi-trens carregados de toras gigantescas, gado na "pista", terra seca e sol escaldante. Haja ar condicionado, tempo integral. Em Nova Monte Verde, nos aguardavam mais três parceiros com seus carros e os barcos, além do cozinheiro contratado. A tardinha foi de ida ao Supermercado, ao posto e ao gelo e depois, para a cama.

Quinto dia, madrugada ainda, pegamos as Tuviras (miudinhas de doer) e rumamos para a última cidade, com mais 80 km. de poeira infiltrante. Café da manhã e "adeus civilização". Mais 90 km. mato a dentro, até chegar na Fazenda e à barranca do Rio Juruena. Isto deu exatos 3.372 km. para o Baeter e para mim.

 

- Parte II -

Pescaria bem organizada tem sempre aquela cota extra, como "reforço emergencial" de Cerveja, de Combustível, de Gelo, etc. Resultado: não coube tudo nos 3 barcos, que já levariam os 10 atletas, seus pertences pessoais e uma tralha de fazer inveja. Reunião-relâmpago para decidir o que fazer e a opção vencedora foi descer o Juruena até achar uma boa Ilha antes do escurecer, montar o acampamento, preparar o rango, verificar a piscosidade do local e depois seguir em frente para outro ponto.

Só que estaríamos cada vez mais longe do estoque estratégico. Instalados numa bela Ilha a 25 km. do porto da Fazenda, resolvemos ficar por ali mesmo, já que tinha muito peixe, oito Barracas bem instaladas, tudo beleza. Mas tinha gente que não esqueceu aquelas histórias da Onça Pintada que devorou quase 400 porcos e da Sucuri que engoliu aquele dentista. Banho noturno, nem pensar. Segundo dia de pescaria, beleza pura. Mesmo assim, não esquecemos do plano inicial de "dar um pulinho" até o Salto Augusto, que no GPS se mostrava ainda a 69 km., em linha reta, o que daria quase 80 km. de rio abaixo. De consenso, o barco maior desceria com 3 Pescadores (Arnaldo, Baeter e eu, além do piloteiro Osni).

Levamos bastante gasolina, lanternas, Sonar, 2 GPS, rádios Motorolla, comes&bebes, tralha completa, filmadora e câmaras fotográficas. Os companheiros Helmuth, Nivaldo e Ivo ficariam naquele dia pescando nas redondezas do acampamento, com os piloteiros Capixaba e Sorriso. Na descida, optamos por seguir a margem direita, pois ninguém conhecia nada dali. Foi a "pior viagem", com pedreiras de todos os tamanhos.O Sonar apitava nos baixios e mostrava poços com muito peixe embaixo. Tinha poço de mais de 40 metros de profundidade, com cardumes enormes. Mas a vontade de chegar ao Salto Augusto nos fazia apenas mapear no GPS para futuras investidas.

Só que nossa sorte acabou antes das 9 horas, numa ponta de pedra que detonou o motor Honda 4 tempos, novinho. Para piorar, estávamos rio abaixo e já fora do alcance de nosso radinho. O jeito foi seguir no remo, pescando e mantendo o rumo do barranco, onde se sabia ter Fazendas e Garimpos.

Ao meio-dia encontramos um barco com agrimensores de uma Empreiteira, que nos rebocaram rio abaixo mais uns 6 km., até uma Fazenda. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que o fazendeiro está se preparando para montar uma Pousada de Pesca, isto à apenas 1 hora de barco do Salto Augusto. Nossos olhinhos brilharam como quem achou um oásis com camelo encilhado e tudo o mais. Era só o que queríamos ouvir.

Mas, responsabilidade é responsabilidade. Nosso colegas ficariam aflitos se escurecesse sem chegarmos à "nossa" Ilha. Caímos na real e negociamos uma viagem no barco do Sr. João, nosso anfitrião-anjo-protetor, até a Ilha, para retornar no dia seguinte e concluir o tal "pulinho" ao Salto Augusto. Negócio fechado e ele cedeu um Peão, bom de navegação, conhecedor do Juruena como poucos, que riu de nossa (pouca) desgraça, pois tínhamos descido exatamente por onde não se pode passar. De volta ao acampamento, fomos recebidos com um misto de (merecida) repreensão e de alívio. (a história segue mais adiante).

- Parte III - Finalmente o Salto Augusto -

Depois daquele gasto excessivo de combustível, decidimos que um barco voltaria ao porto de origem, na Fazenda, para buscar o nosso "estoque estratégico". Programei o GPS para que o Sorriso achasse o porto, 25 km. Juruena acima. Achou facilmente, mas "caiu de costas" quando constatou que levaram toda nossa Cerveja (25 caixas) e nosso Gelo (10 sacos), apenas deixando duas Bombonas com 100 litros de gasolina porque pesou muito (felizmente, ladrão à pé tem limites também). Depois disto, na Ilha, ouvido o "B.O. verbal", abastecemos e iniciamos a descida rumo ao Salto Augusto.

Chegamos perto das 13 horas na Fazenda do Sr. João, fizemos troca de motor na nossa Chata de 7 metros e partimos, com o Peão Benedito no comando. Depois de uma hora, o Juruena estreitando, navegamos entre redemoinhos d`água. Benedito encostou o barco numa pedreira e pediu para que 2 descessem, porque a passagem pela garganta era muito perigosa. O Baeter e eu ficamos na pedra, imaginando a reação do Arnaldo enfrentando a fúria das águas. Minutos depois, foi nossa vez. Colete firme, espírito preparado, brincamos de "segura peão" durante uns 10 minutos, até chegar ao barranco onde o Arnaldo nos aguardava. Foi divertido!

Em poucos minutos chegamos à uma antiga Pousada que o IBAMA embargou há uns 7 anos. Muito bonita, localização privilegiada (um desperdício imensurável. Vou mandar a foto dela aos que a pedirem). O zelador nos conduziu ao Salto Augusto em seu barco borda alta, 7 metros, motor 30 HP porque o nosso não agüentaria o tranco, por ser de borda baixa e com apenas 15 HP.

Aí que começou a aventura que, nas palavras do Arnaldo (que não mente e nem aumenta) assim define o que vimos: "cada redemoinho, num poço que tinha 42,9 metros, o rio faz um Z e cria quatro rebojos..aquelas duas Serras que encostam no rio e que formam a muralha de pedra que mais parece obra de uma civilização antiga fez uma enorme represa dos dois rios (Juruena e São João). Os dois rachões onde passa a correnteza - em 150 metros de "furo" passa um rio de 2 Km de largura...A farra dos peixes: em 20 minutos, em três pescadores, oito jaús e oito cachorras de grande porte.

Os peixinhos que tentam fugir dos grandes, a água leitosa dos dois canais, a fúria das águas..Tem muita coisa pra falar. Depois, a natureza exuberante, a grandeza, o volume das águas, os peixes".(mais de mês depois da volta, o homem ainda delirava em cima do que viu. O Salto Augusto o aguarde novamente!). Acrescento que a água é tão límpida que a bebemos "in natura". Lá estivemos por muito pouco tempo, mas vimos e registramos muito, para repassar aos Amigos numa noitada dessas.

Mas, o dia não estava completo. Ainda tinha lição para aprender. Quando chegamos de volta à Fazenda do Sr. João, já passava das 18 horas, recebendo dele convite para pernoitar ali para não enfrentar 5 horas de subida perigosa, à noite. Só então tivemos um visão melhor das condições precárias que satisfazem alguém que não conhece os apelos do "mundo moderno", embora tivesse um aparelho de TV com uma antena parabólica.

A casa, velha, de chão batido, cercada de floresta e um acesso rodoviário ao Distrito de Nova União (uns 60 km. dali), tendo por sede municipal Cotriguaçu (uns 100 km.), onde ele vai com a Toyota buscar combustíveis e resolver outras necessidades básicas. Nem sequer instalação sanitária existe por ali. Contou sua história: solteiro (cinqüentão) fez pequena fortuna no garimpo, donde saiu há uns 2 anos, levando consigo em adoção um menino. Comprou "algumas terras" e se instalou ali, onde também acolheu um idoso sem-eira-nem-beira. Externou sua idéia de montar uma futura Pousada de Pesca naquele local. Tentamos esclarecer, com nossa experiência da área, que a coisa não é tão fácil assim em função do acesso, distâncias, pessoal, treinamento, pista de pouso, etc. (o garimpo tem uma pista que foi explodida em 2005 pela PF, mas já a reabriram).

Hora da janta, com direito à fartura de carnes (caça, frango, porco, peixe, etc.) além de massa e saladas. Na hora de dormir, pegamos nossos colchonetes no barco para montar um "dormitório" no chão. Nada disto! Ele ofereceu a única cama de casal e uma de solteiro para nós, ajeitando no chão o pessoal da casa. Só aí percebemos a real riqueza que esse homem simples e acolhedor carrega consigo, muito antes de achar ouro no garimpo. Nos vendeu alguma gasolina no dia seguinte, mas não aceitou nada pela providencial acolhida e hospedagem que nos deu. (o último capítulo segue na próxima).

- Parte Final -

De volta ao acampamento, fizemos breve relato, mostrando a todos as fotos e a filmagem. No dia seguinte. com a subida antecipada de dois piloteiros e do parceiro Ivo (eles dizem que a desistência deles não tem nada a ver com o racionamento da cerveja, mas...), decidimos pescar mais um dia por ali e concluir a jornada montando acampamento na barranca da Fazenda.

Assim o fizemos por dois dias, que se tornaram menos secos porque chegou um moto-home de Minas Gerais com um pessoal bem estocado de cerveja e gelo, que queria comer peixe antes mesmo de pescar (lembram do "escambo"? Toma lá e dá cá). À noite, recebemos a honrosa visita do Sr. Célio, proprietário daquele chão e que nos acolheu tão generosamente. Como não é muito de pesca, recebeu um troféu recém vindo da água, um Trairão gigantesco.

Naquele ponto do Juruena, a navegação é bem mais perigosa devido às pedras, exigindo perícia e cautela. Fizemos uma rota no GPS e assim até no escuro se retornava tranqüilo. Ainda no penúltimo dia, resolvemos explorar rio acima, encontrando um lugar muito especial, próximo da margem. Era um ilhota de pedra pura, com alguns buracos. Num deles tinha uma Sucuri de mais de dois metros. Ao redor, poços de 6 metros em todos os lados, com abundância de peixe (Trairão, Cachorra, Tucunaré e Bicuda).

Levamos alguns exemplares para o tira-gosto e, na tardinha da véspera da saída, liberamos o cozinheiro Riva para pescar também conosco. O rapaz tem estilo e o peixe gosta desse ex-garimpeiro, bom de culinária. Desmontamos o acampamento, embarcamos mais um saco de latinhas amassadas (um saco cheio já tinha ido com o trio apressadinho) e passamos na sede da Fazenda para o agradecimento e as despedidas. Na volta, já menos aflitos (tá nervoso, vá pescar!), pudemos contemplar melhor que a paisagem, mesmo empoeirada, tem vida "normal". Passamos sobre as nascentes de vários rios amazônicos, como Apiacás, Teles Pires e Arinos. Abaixo do Divisor, rios pantaneiros como o Cuiabá (com sua ponte em arco), das Mortes, São Lourenço, Areia, Itiquira, Correntes (divisa MT/MS), Piqueri, Coxim (assoreado pela degradação da mata ciliar desde 1991, quando lá estive pela primeira vez) e outros menores.

Em Jangada, "capital do Pastel", uma parada técnica para saborear a prata da casa com água de coco, bem geladinha. Chegando em Cuiabá, a majestosa Chapada dos Guimarães a nos contemplar, distante a menos de 60 km. Na divisa MS/PR (Mundo Novo/Guaíra) passamos pelo rio Paranazão, extremo Norte do Lago de Itaipu, a exatos 152 km. da Foz. No Estado do Paraná encontramos várias obras de recapeamento asfáltico. Desembarcamos em Vidal Ramos já pensando na próxima aventura.

Contribuição de Adão Leopoldo Jaeger FLORIPESCA -

Seu Parceiro no Turismo da Pesca www.floripesca.tur.br